A ação CSAN3, da Cosan, passou a chamar mais atenção dos investidores após o agravamento da crise da Raízen, joint venture da companhia com a Shell.
A Raízen nasceu em 2011 a partir de uma joint venture entre a Shell e o grupo Cosan (CSAN3), empresa controlada pelo empresário Rubens Ometto. A parceria uniu dois ativos estratégicos: a produção de açúcar e etanol da Cosan e a rede de distribuição de combustíveis da Shell no Brasil.
Atualmente, Shell e Cosan possuem cerca de 44% de participação cada na companhia, enquanto o restante das ações está em circulação no mercado.
Ao longo dos anos, a Raízen se consolidou como um dos maiores grupos de energia do Brasil, atuando em toda a cadeia do setor sucroenergético. A empresa produz açúcar e etanol, gera energia renovável a partir do bagaço da cana-de-açúcar e também opera uma ampla rede de distribuição de combustíveis sob a marca Shell.
A aposta em crescimento financiado por dívida
A partir de 2016, a companhia iniciou uma fase de expansão mais agressiva e passou a apostar em projetos de longo prazo financiados principalmente com dívida.
Esse tipo de estratégia costuma funcionar bem em períodos de juros baixos, quando o custo do capital é menor. No entanto, quando o ciclo vira e as taxas de juros começam a subir, a estrutura financeira das empresas mais alavancadas passa a ser pressionada.
“Quando o ciclo virou e a Selic começou a subir, a conta apertou. Com alavancagem alta, qualquer choque — clima, preço ou custo financeiro — vira crise. A seca e os incêndios foram gatilhos, mas não a causa raiz. Empresas menos alavancadas absorvem esses impactos; empresas muito alavancadas entram em espiral”, diagnosticou o especialista José Luiz Mendes, consultor de Estratégia e M&A da StoneX.
Um dos principais investimentos realizados pela Raízen foi no etanol de segunda geração (E2G), tecnologia que permite produzir biocombustível a partir do bagaço e da palha da cana.
A aposta da empresa era que combustíveis mais limpos poderiam capturar um prêmio relevante no mercado. No entanto, esse prêmio não se materializou na velocidade esperada.
Existe, na prática, um certo descasamento entre a narrativa ESG e a disposição real do consumidor em pagar mais por combustíveis considerados mais sustentáveis.
Além disso, no mesmo período em que a Raízen avançava nesses projetos, um concorrente relevante ganhava espaço: o etanol de milho, que cresceu rapidamente no Brasil com estrutura de custos competitiva e execução operacional mais simples.
Diversificação e desafios operacionais
Outro ponto que pressionou a empresa foi um processo de diversificação considerado por alguns analistas como excessivo.
A companhia passou a investir em diferentes frentes, que iam desde trading e geração de energia solar até parcerias no varejo de conveniência, como o projeto com a rede Oxxo, além da expansão internacional.
Ao mesmo tempo, a própria Cosan também enfrentava desafios financeiros. Um exemplo foi o investimento bilionário em ações da Vale, que acabou sendo impactado pela queda no preço do minério de ferro.
Com isso, a holding perdeu parte da sua capacidade de apoiar financeiramente a Raízen em um momento mais delicado para a empresa.
Linha do tempo da crise da Raízen
Origem da empresa
2011 – Cosan e Shell anunciam a criação da Raízen, uma joint venture voltada à produção de açúcar e etanol, além da distribuição de combustíveis e geração de energia a partir do bagaço da cana.
Expansão e crescimento
2016 – A empresa inicia uma fase de expansão e passa a apostar fortemente no desenvolvimento do etanol de segunda geração (E2G).
2020 – Raízen anuncia uma joint venture com a Femsa, dona da rede Oxxo, criando o Grupo NOS para expandir o negócio de lojas de conveniência em postos de combustível.
2021 – A companhia realiza um dos maiores IPOs do ano na B3, movimentando cerca de R$ 6,9 bilhões.
No mesmo ano, anuncia a compra da Biosev, subsidiária da Louis Dreyfus, por aproximadamente R$ 3,6 bilhões.
Também são anunciadas novas plantas de produção de etanol de segunda geração.
Crescimento da dívida
2022 – A empresa registra lucro líquido de cerca de R$ 3 bilhões, com dívida líquida de R$ 13,8 bilhões e alavancagem de 1,3 vez o Ebitda.
2023 – O lucro líquido sobe para R$ 3,9 bilhões, enquanto o endividamento cresce para R$ 20,4 bilhões.
Pressão financeira
2024 – O lucro líquido cai para R$ 1,3 bilhão, uma queda de 67% em relação ao ano anterior.
A empresa inicia um processo de venda de ativos e também realiza mudanças em sua liderança executiva.
Deterioração dos resultados
2025 – A Raízen registra prejuízo líquido de R$ 4,2 bilhões no ano fiscal 2024/2025.
A dívida líquida sobe para cerca de R$ 34 bilhões e a alavancagem alcança 3,2 vezes o Ebitda.
Escalada da crise
Final de 2025 – A empresa perde o grau de investimento concedido pela Moody’s.
2026 – O prejuízo acumulado chega a R$ 15,6 bilhões até o terceiro trimestre do ano fiscal.
A dívida líquida ultrapassa R$ 55 bilhões e a alavancagem atinge cerca de 5,3 vezes o Ebitda.
Agências de rating como S&P e Fitch também retiram o grau de investimento da companhia.
Recuperação extrajudicial
Março de 2026 – Após negociações com credores e tentativas de capitalização, a Raízen anuncia um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 65 bilhões em dívidas financeiras.
O que está acontecendo com a ação CSAN3?
Nos últimos meses, a ação CSAN3, da Cosan, passou a chamar mais atenção dos investidores.
Parte desse movimento está diretamente relacionada à crise financeira da Raízen. Como a joint venture é um dos principais ativos da Cosan, qualquer deterioração financeira da companhia tende a aumentar a percepção de risco sobre a holding.
Isso não significa necessariamente que a Cosan enfrentará os mesmos problemas financeiros da Raízen. No entanto, investidores passaram a questionar até que ponto a holding poderia precisar apoiar financeiramente a empresa ou absorver parte dos impactos da reestruturação.
Vale a pena comprar ações da Cosan (CSAN3)?
A crise da Raízen levantou uma dúvida importante entre investidores: vale a pena comprar ações da Cosan (CSAN3) neste momento?
Por um lado, a Cosan é uma holding diversificada, com participação em diferentes negócios ligados aos setores de energia, logística e infraestrutura.
Por outro lado, a Raízen é um ativo relevante dentro do grupo, e sua deterioração financeira acabou aumentando a percepção de risco do mercado sobre o conglomerado.
Na prática, o impacto nas ações da Cosan depende principalmente de três fatores:
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a capacidade da Raízen de reduzir sua alavancagem
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o nível de apoio financeiro que poderá ser exigido dos acionistas
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a recuperação operacional do negócio de açúcar, etanol e combustíveis
Se a reestruturação financeira da Raízen for bem-sucedida, parte da pressão sobre o grupo pode diminuir. Caso contrário, a percepção de risco pode continuar afetando o valuation da holding.
Em outras palavras, a crise da Raízen não significa automaticamente uma crise da Cosan. Mas, como a joint venture é um dos principais ativos do grupo, a forma como essa reestruturação será conduzida deve continuar sendo um dos fatores mais observados pelos investidores nos próximos meses.
Saiba mais sobre as ações da Cosan no: https://www.guardardinheiro.com.br/acoes/csan3